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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Violante e Luís

Ao longo dos séculos, focou-se os amores de Luís de Camões nas
Catarinas e sendo ele grande apreciador de peito de galinha até
se compreende. Só já no século XX, Aquilino Ribeiro voltou a falar
na Violante, a esposa do amo de Camões e pela qual este último
terá tido a paixão da sua vida. Aproveitando a deixa houve depois
um comentador de programas históricos que bordou à volta da
descoberta uma teorias inverosímeis e mais enfartadas que labregas
holandesas. Este poema, Num jardim adornado de verdura, é dos
mais belos que Luís terá escrito para Violante. Nota-se que aproveita
a presença de três chaperons para a sua declaração a uma mulher
casada não parecer demasiado pessoal e intimista.

Num jardim adornado de verdura,
A que esmaltam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo uma rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas, na graça e formosura.
Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria,
Por mais suave, pura e mais formosa.
Sorrindo-se, o Menino lhe tornava:
"Todas formosas são; Mas eu queria
Viol'antes que lírio nem que rosa."
Luís De Camões

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Perdigão perdeu a pena


Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís Vaz de Camões